Andou apenas uma centena de metros e parou sem saber minimamente qual o motivo porque parava. À partida, não se tinha esquecido de nada, não encontrou ninguém conhecido, não sentiu que o devesse fazer, nem tinha chegado a nenhum local minimamente convidativo para exercer a arte da reflexão, apenas reparou que tinha parado, como se as suas pernas já não lhe obedecessem.
Esse tão aparentemente banal acontecimento deixou-o curiosamente inquieto e durante alguns segundos, que naquele momento lhe pareceram uma eternidade, tentou procurar nos rostos das pessoas que passavam e que dele se desviavam, alguma pista que justificasse aquela situação.
Acho que estou a ficar doido, pensou, mas isso já não é grande novidade.
Subitamente, de uma janela qualquer, soltou-se um grito ou um riso ou um lamento, ele não percebeu bem o que era porque o som que ouvira tinha um pouco de grito, de riso e de lamento. Olhou para cima, para o prédio que lhe estava mais perto e todas as janelas lhe pareceram iguais, todas se calaram e ele por todas elas se sentiu observado.
De pés ainda fincados no chão, abriu rapidamente a mochila e tirou de lá a máquina fotográfica. Não se podia deixar intimidar por umas quaisquer janelas, de um prédio que sempre ali esteve, mas que ele nunca tinha visto, e fotografou cada uma delas, como se de pessoas se tratasse, individualmente, procurando revelar-lhes a alma.