quinta-feira, julho 28, 2005

Para vocês...






um agradecimento especial ao Jonsi!

quarta-feira, julho 27, 2005

Agora, escolham!

terça-feira, julho 26, 2005

XV

Quando saiu para a rua, mesmo em frente à porta, do outro lado da estrada, estava um tipo a fotografar o prédio. Olhou melhor e pareceu-lhe reconhecer aquele rosto, mas seguiu em frente. Tinha pedido ao patrão que o deixasse chegar um pouco mais tarde, porque tinha alguns problemas pessoais para resolver, mas não queria abusar, porque quem usa e abusa... não usa mais!
Uns dez minutos depois de ter chegado ao Tágides, chegou também o fulano que tinha estado a fotografar o prédio. É isso, pensou, afinal é daqui que o conheço.
Já há muito tempo que aquele cliente frequentava a esplanada e não fora a situação emocionalmente desgastante que acabara de acontecer, tê-lo-ia reconhecido imediatamente. Sentava-se quase sempre à mesma mesa e pedia sempre um café e uma água ou, com menos frequência, apenas um martini. Na maioria das vezes tem como sua única companhia um caderno, no qual escreve frases soltas. Que fará este tipo? Pensava ele, entre os pedidos da mesa 2, da 8 e da 15. “Sai um croissant sem creme e um Ice Tea!!”
Já tinham trocado alguns olhares, mas eram olhares de cumprimento, perfeitamente naturais entre quem frequenta o mesmo local durante um certo período de tempo.
José era um tipo observador e o homem do caderno também. Ele sabia que existe uma condição universal que nos remete para um lugar concreto: Nós somos apenas e sempre o Outro, no mundo dos outros.

Blá-blá, com nuvens

segunda-feira, julho 25, 2005

Blá-blá, nas nuvens

XIV

Seis e vinte e nove da manhã. Acordou um minuto antes do despertador, como já se tornava rotina, tantos eram os dias iguais. Cumpria escrupulosamente o horário de trabalho, embora não lhe agradasse ter de fazer aquele tipo de serviço, principalmente porque as pernas já lhe pesavam e lhe rareava a paciência para lidar com alguns dos clientes da tarde, que não sabem quando parar de beber.
Trabalhar das sete e trinta até às onze e trinta da manhã e das cinco da tarde até às nove da noite era um horário que, apesar de tudo, lhe agradava porque lhe concedia algum tempo para tratar de alguns assuntos, andar pela cidade como se estivesse de férias e também para se encontrar com conhecidos e cruzar com desconhecidos. Considerava-se uma pessoa com sorte, apesar de nem o dinheiro nem os amores lhe serem totalmente favoráveis.
O que se tinha passado ontem, tinha-o deixado mais perturbado do que ele imaginaria. Já há muitos meses que a sua relação com a Luísa tinha acabado, mas ela suplicava-lhe que não a deixasse, porque tudo se resolveria. O facto de ela morar a algumas centenas de metros do Tágides, tornava tudo mais complicado. Ele via-a quase todos os dias, porque ela não conseguia evitar por ali passar e olhar e parar, até que tivesse a certeza de ter sido vista.
Ontem, após a vigésima tentativa de terminar a relação entre os dois, ao sair lá de casa e enquanto descia as escadas, ouviu dela um único grito, que era simultaneamente também um lamento e temeu pela loucura dela, que desavergonhadamente se anunciava.

sexta-feira, julho 22, 2005

Todos temos um...


Nem que seja dentro de nós próprios!

XIII

Voltou para casa, percorrendo cada metro horas antes palmilhado. Tinha traçado mentalmente, a esquadro e compasso, todas as rectas, curvas e até hipérboles, que em sentido inverso umas horas antes desenhara. No entanto, exceptuando distância relativa, nada conseguiu subtrair, nem tempo, nem sensações, nada. Na Vida não há subtracções, apenas somas, mesmo que sejam somas de perdas, pensou.
Só quando fechou a porta de casa é que se apercebeu de que tinha feito o percurso sem se ter lembrado de olhar para as indiscretas janelas, penduradas naquela fachada de azul claro. Sentiu-se tremendamente volúvel. Pousou o caderno na pequena mesa que está perto da janela da sala e dirigiu-se para o quarto, fingindo que estava cansado. Na realidade, o que lhe apetecia mesmo era dormir e gastar tempo e não lhe interessava os conselhos do travesseiro ou o poder reparador do sono, desejava apenas não estar.
Era já recorrente este seu desejo, principalmente em situações de encruzilhada, nos momentos em que as opções se assemelham a rifas com prémios dúbios, que somos obrigados a levar connosco.

Cansaram-se dele as horas e acabou por adormecer.

quinta-feira, julho 21, 2005

Ainda têm fôlego??

XII

Por entre conversas de namorados, discussões futebolísticas e acalorados discursos sobre o mau estado da Nação, lá conseguiu escrever duas páginas que, de tanto anotadas e riscadas, pouco sentido poderiam ter para qualquer outra pessoa que não ele próprio.
O Tempo, na escrita, sempre foi para ele um tema de eleição. Sentia que, escrevesse o que escrevesse, nunca dele se afastaria porque, para as palavras existirem, para que as possamos ouvir ou ler, para que em nós façam surgir qualquer tipo de sentimento, necessitamos permanentemente do Tempo, como incontornável suporte para a vida. Aliás, a maioria das palavras, escritas ou mesmo ditas, remete-nos para o Tempo e para o Espaço, “Tempo e Espaço”, pensou, “Espaço e Tempo”, “E” e “T”.
Ficou mais algum tempo a pensar no que lhe sugeriam aquelas letras e, como se fosse um jogo, resolveu procurar as palavras que, nas frases soltas que já tinha escrito, o remetiam para essa problemática de “E” e “T”. Chegou num ápice à conclusão que já esperava: mais de metade das palavras que escrevera estava impregnada de Tempo, prenha de Tempo, numa espécie de simbiose eterna, recriação permanente. E reescreveu-as uma a uma, até ficar cansado.
Horas.
Sucediam-se.
Ensaiou.
Saíam.
Passava.
Escreveu.
Pensou.
Tocou.
Consumia.
Pousou.
Abandonou.
Momento.
Iniciou-se.
Espera.


Tudo o colava ao Tempo e o tempo colava-se a ele, como um caprichoso parasita.

quarta-feira, julho 20, 2005

Bom dia!

XI

A "água" chegou, antes mesmo de ele ter conseguido escrever duas ou três palavras no paciente caderno. Nem todas as palavras são como as cerejas, há algumas que têm um difícil parto e outras que morrem prematuramente. Construir um texto com palavras seguras e saudáveis é apanágio de apenas alguns. As palavras possuem uma personalidade vincada e mordem a mão a quem displicentemente as utiliza.
Começou por rabiscar alguns gatafunhos, antes que surgisse qualquer frase. Fazia sempre isso, não que tivesse qualquer habilidade para desenhar, mas por acreditar que assim as palavras se sentiriam mais aconchegadas, tal como acontecia junto do Era uma vez... nas histórias que lia em criança.
Ele sabia bem a dificuldade de começar a escrever, já o tinha tentado centenas de vezes e todas elas lhe tinham deixado algum tipo de marca, que geralmente era de frustração. Esse era um sentimento que sempre o tinha acompanhado e ele tinha que o assumir como familiar, porque a família não se escolhe, calha-nos!

De repente, lembrou-se do que se tinha passado há cerca de uma hora atrás e pensou em escrever precisamente sobre isso. Mas, ao mesmo tempo, isso parecia-lhe muito pouco e ele não era nem detective, nem jornalista, para além de lhe causar um certo pudor utilizar-se do infortúnio alheio para conseguir escrever meia dúzia de páginas, que inevitavelmente iriam acabar no fundo de uma qualquer gaveta.
Fosse o que fosse que escrevesse, teria de surgir de dentro dele.

terça-feira, julho 19, 2005

X

Sentou-se na cadeira da esplanada, local que lhe agradava sobremaneira por poder optar entre estar sozinho ou observar com alguma tranquilidade quem por lá passava. Ter virado à direita quando saiu de casa ou ter caminhado cerca de trinta minutos até àquele “porto de abrigo”, não tinha passado de um gesto que o hábito cristalizou. No entanto, algo tinha sido diferente naquele dia. Apesar de ter tantas vezes feito aquele percurso, sempre que não tinha de ir trabalhar, notou que algo estava diferente. Depressa de apercebeu de que a diferença não estava no grito ou riso ou lamento, nem sequer nas janelas que, curiosas, olharam para ele, mas sim nele próprio, porque não há nada mais transformador do que o olhar.

Tirou da mochila o pequeno caderno e também o lápis e esperou que o empregado por ali passasse. Não estava com pressa e também não queria usar o perpetuado “olhefáxavor”, acompanhado de um levantar de braço. E esperou um ou dois minutos, até ter ao seu lado o empregado de mesa, a quem pediu uma água com gás. “Sai uma, com gás!”, disse ele, dirigindo-se ao colega que estava por detrás do balcão. Ao contrário de outros empregados, este, que se chama José, não vocifera os pedidos. Tem a voz bem colocada e projecta-a, como se num palco estivesse. É um tipo estranho, muito vivo mas discreto.

segunda-feira, julho 18, 2005

Foz do Douro



Este local não está mesmo a pedir um Gin Tónico?!?

Tchim-tchim!!!

sexta-feira, julho 15, 2005

Absurdo e Inqualificável

Alguém notou a diferença?

Estou a ver que ninguém reparou no novo "cabeço-banner" ou então não gostaram e estão a fazer-se de distraídos!!! LOL
Será que estou a fazer figura de urso?? Espero que sim!!! ;)

Quem me dera!

IX

Suavemente voltou a colocar a máquina fotográfica dentro da mochila, porque acreditava que dentro dela, algures dentro daquele incrível objecto, estava um tesouro.
Tinha passado grande parte da sua vida à procura de tesouros, tal como uma criança que à beira-mar apanha pequenas pedras e conchinhas, fascinada pela sensação de descoberta. Coleccionava pedaços de tempo, nos papéis, nas fotografias, em alguns objectos que o acompanhavam quando viajava ou na pacatez da sua casa, como se ele próprio se disseminasse por cada um deles. Estava disso convencido e possivelmente teria razões para tal.
As pernas avançaram-lhe, de novo sem aviso algum, mas ele nem estranhou, nem tão pouco se apercebeu e caminhou talvez mais de trinta minutos. Durante todo esse tempo tentou mentalmente reproduzir aquele som que ouvira, que nem era um grito, um riso ou um lamento ou que era tudo isso junto. Que disparate perder tanto tempo com isto, quis convencer-se, que tenho eu que ver com..., hesitou.
Aquele acontecimento tinha-o marcado mais do que ele queria, ou talvez não, ele queria que aquele ou outro qualquer acontecimento o ajudasse a traçar um novo rumo, não lhe interessava que nas fotografias apenas aparecessem conchas ou que na mochila nada mais estivesse do que meia dúzia de pedras, o verdadeiro tesouro é aquele que criamos dentro de nós, pois não há nada mais verdadeiro do que aquilo em que acreditamos.

quinta-feira, julho 14, 2005

VIII

Andou apenas uma centena de metros e parou sem saber minimamente qual o motivo porque parava. À partida, não se tinha esquecido de nada, não encontrou ninguém conhecido, não sentiu que o devesse fazer, nem tinha chegado a nenhum local minimamente convidativo para exercer a arte da reflexão, apenas reparou que tinha parado, como se as suas pernas já não lhe obedecessem.
Esse tão aparentemente banal acontecimento deixou-o curiosamente inquieto e durante alguns segundos, que naquele momento lhe pareceram uma eternidade, tentou procurar nos rostos das pessoas que passavam e que dele se desviavam, alguma pista que justificasse aquela situação.
Acho que estou a ficar doido, pensou, mas isso já não é grande novidade.
Subitamente, de uma janela qualquer, soltou-se um grito ou um riso ou um lamento, ele não percebeu bem o que era porque o som que ouvira tinha um pouco de grito, de riso e de lamento. Olhou para cima, para o prédio que lhe estava mais perto e todas as janelas lhe pareceram iguais, todas se calaram e ele por todas elas se sentiu observado.
De pés ainda fincados no chão, abriu rapidamente a mochila e tirou de lá a máquina fotográfica. Não se podia deixar intimidar por umas quaisquer janelas, de um prédio que sempre ali esteve, mas que ele nunca tinha visto, e fotografou cada uma delas, como se de pessoas se tratasse, individualmente, procurando revelar-lhes a alma.

quarta-feira, julho 13, 2005

VII

Eu preciso de arejar, foi o que ele pensou. Juntou numa pequena mochila um bloco de notas, um lápis e uma pequena máquina fotográfica digital, que lá tinha sido deixada em casa pela Rita e naquela tarde as velhas escadas de madeira, outrora envernizada, pareceram-lhe um túnel, um corredor que lhe daria acesso a uma garantida sensação de liberdade ou então ao Hades. Mesmo assim, estava absolutamente decidido a correr esse risco.
O tempo da autocomiseração, que para além de constituir um sofrível leitmotiv para os seus “ensaios”, tantas vezes lhe serviu de desculpa para uma certa letargia, tinha os dias contados, pensou ele alto ou talvez o tenha dito baixinho, não interessa. O que interessa é que saía consciente de que naquele momento levava também consigo a sua circunstância, essa carga inalienável, déspota, imponderável, transparência de aço maior do que ele próprio.
Já à porta do prédio, virou à direita, não por alguma razão especial, mas por puro hábito, e seguiu em frente como se soubesse plenamente para onde ía.
A tarde já tinha atingido a sua maturidade há algumas horas. Era o seu favorito período do dia, principalmente durante o Verão, quando uma certa cor de açafrão desce sobre os telhados e pelas paredes, anunciando que tudo tem um fim, os males que nos afligem e até as coisas boas que nos acontecem.

terça-feira, julho 12, 2005

L.T.A.S.?

Para animar...

VI

O que se inveja aos artistas é a sua genialidade ao transformar o curioso, o inesperado, o desconfortável ou o perplexo em objectos, frases ou momentos de espanto. Pelo menos, ele acreditava fervorosamente nisso e, de uma forma quase autofágica, aproveitava todo e qualquer desaire para tentar escrever um pequeno texto, um conto ou, quem sabe, até um romance.
Tantas foram as vezes que partiu em direcção à “página desconhecida”, que um dia se apercebeu de que nada mais tinha para dizer e de que os personagens que criara e a quem dera rosto, dele se tinham simplesmente fartado e definitivamente partido: o José já desistira de trabalhar como caixeiro-viajante e trabalha agora numa firma de contabilidade; a Rute tinha conseguido perdoar ao pai e ao irmão todos os maus-tratos que durante anos lhe infligiram; o Luís acabou por enlouquecer sem saber quem realmente era.
Afinal não tinha sido apenas abandonado pela Rita, mas sim por todos os que lhe estavam próximos, até mesmo daqueles que ele inventou. Então, pensou a sério, ainda mais a sério, sobre o que lhe estava a acontecer. Quem teria realmente partido? Quem se afasta primeiro? A partir de onde se começa a medir o afastamento? De mim para os outros?
Todas estas questões ainda lhe povoam o espírito, principalmente porque são dúbias, ambíguas, reversíveis. Ele sabia que não há zona mais pantanosa do que o terreno do “eu”, mas não conseguia encontrar qualquer saída.

segunda-feira, julho 11, 2005

V

A pressão familiar para que ele se casasse e tivesse filhos, muito filhos, sempre foi uma constante, pelo menos até ao infeliz desfecho da gravidez da Rita, um aborto espontâneo às 8 semanas, depois de já terem sido feitos tantos planos para o neto que aí vinha. Sim, era um rapaz, tinha que ser um rapaz porque a família tem um nome e morrendo o nome, morre a família. Essa era sem dúvida a mais forte razão.
Uns tempos mais tarde é que ele percebeu que este episódio foi determinante para que a Rita saísse de casa, pelo menos isso era mais fácil de aceitar do que admitir a sua incapacidade para construir uma relação a dois. Que lhe faltaria? Entrega? Dedicação? Amor?!? Talvez.
“Talvez”, era a palavra com que mais se deparara ao longo dos últimos anos. É uma palavra ambígua, digna de encruzilhadas, plena de possibilidades, mas também cheia de angústia e parca de tranquilidade.
Talvez ainda não lhe tivesse sido dada a possibilidade, ou a fortuna, de se apaixonar verdadeiramente. Não, isso não lhe parecia possível. No entanto, os “quarenta” estavam a poucos meses de distância e embora isso não o assustasse, porque considerava a passagem do tempo como apenas mais uma inevitabilidade, trazia-o um pouco perplexo, desconfortável.

domingo, julho 10, 2005

Ide à Praia!

Apesar de a praia não ser um dos meus locais preferidos... expecialmente no Verão. Ontem passei por lá apenas cerca de meia hora e "trouxe" alguns mimos para alguns apreciadores deste tipo de "portugueses" ;)
Para quem não aprecia, as minhas desculpas...


sexta-feira, julho 08, 2005

IV

Pensando melhor, todas as relações da sua vida tinham tido uma pitada de estranheza, um desfasamento que, por ser latente, se manifestava amiúde e nos momentos mais inesperados. É óbvio de que esses momentos foram e ainda são na sua vida pontos de viragem e de introspecção, momentos tontos e de espanto.
A Rita era, sem dúvida, a pessoa que mais se irritava com as suas “ausências”, talvez porque isso, para além de um afastamento imposto, lhe trouxesse uma insegurança da qual não conseguia escapar. Que foi?, perguntava ela, sabendo de antemão que a resposta seria: Nada!. Nos primeiros meses da sua estadia lá em casa, ainda insistia com ele, fazendo uso da arte de interrogar, perguntando sempre o mesmo, mas com vocábulos diferentes: Passa-se alguma coisa? Estás bem? Há algum problema? ou ainda Em que estás a pensar?. A resposta era invariavelmente a mesma: Nada!
Ele não tinha a noção do mal que isso lhe fazia a ela e ao relacionamento entre os dois. Tanto que, quando ela se cansou de não conseguir habitar no coração dele, apenas lhe disse Vou-me embora! Ele perguntou-lhe o porquê e ela respondeu Por nada. Ele quis não compreender a razão que a levava a tomar tal atitude e até chorou quando a viu desaparecer atrás da porta que se fechava, mas no fundo percebia bem o que se passava.

Para descontrair...

Leia um livro! ;)



(suspiro...)

quinta-feira, julho 07, 2005

III

A sua relação com os animais, quase todos os animais, sempre tinha sido difícil. E até aí tudo bem. O que lhe custava mesmo ouvir dizer era que “Os animais sentem quem é ou não é boa pessoa” ou ainda, “Eles percebem que tens medo, e pronto”! Já não lhe bastava o estigma de ser arranhado, mordido e humilhado por tudo o que tivesse mais de duas patas, ainda tinha de escutar longos sermões sobre etologia, principalmente por parte dos babados donos dos animalejos!
Havia no entanto, um género de animais que, para além de o tranquilizarem imenso, lhe recordavam uma infância feliz e com o qual nunca tinha tido qualquer desentendimento: os peixes.
Esse elo que o ligava ao mundo animal era praticamente desconhecido por todos os seus amigos e até pela Rita, com quem viveu durante três agridoces anos. No entanto, não lhe agradava admitir esse gosto, aparentemente pouco másculo, com receio de ser gozado, mesmo que se tratasse "apenas de uma brincadeira". Isso tinha já acontecido, há tantos anos atrás, num momento em que optou por ficar a assistir ao nascimento dos Platys, em vez de ir jogar à bola. Desde essa altura e durante alguns meses, passou a ser conhecido pelos amigos pelo “Barbatanas”. Felizmente, as alcunhas tinham sempre pouca duração e desde “Oculetas” a “Pastilha” ou de “Bifanas” a “Tomate”, quase tudo lhe chamaram.

quarta-feira, julho 06, 2005

II

A cozinha era inevitavelmente o lugar onde ele poderia saciar aquela repentina sede. Se eu fosse como o Sebastião, pensou, o caminho seria mais curto, bastava ir à casa de banho e miar para a torneira do bidé. Assim, tenho que me comportar como gente, quando o que me apetecia era ser gato, espalhar-me entre o sofá e o tapete, procurar moscas e borboletas e afiar as unhas onde bem me apetecesse.
Durante seis semanas, o Sebastião, que era e ainda é o gato da vizinha da frente, mudou-se lá para casa e parecia que aquele sempre tinha sido o seu lar! De início, até lhe achava alguma graça, quando ele se escondia nos sítios mais improváveis ou quando subitamente desatava a correr da sala para o quarto e vice-versa, como se fugisse de um fogo ou de um cão, o que é a mesma coisa, porque o medo sempre foi tremendamente transversal. Mas algum tempo depois e cansado de ter de servir de pajem ao gato, sempre que queria beber água ou se enfiava atrás da máquina de lavar roupa, sem conseguir sair, o idílio transformou-se num pesadelo, um pesadelo que apenas tinha uma única boa: o fim à vista! A vizinha voltou, quis pagar os estragos infligidos ao sofá, oferta que ele pronta e delicadamente recusou, não fosse ela voltar a pedir-lhe para o deixar de novo e apenas por “alguns dias” lá.

terça-feira, julho 05, 2005

instruções

Mais instruções sobre o Corpo de Julho

I

Mais uma tarde sem jeito nenhum, pensou ele e tinha razão para pensar assim. As horas sucediam-se pateticamente, sem dar sequer pela sua existência. Aliás, essa é uma das características das horas, a de ignorarem em absoluto o que à volta delas se passa. O tempo nunca é nosso, apenas nos faz o favor de deixar que a ele ilusoriamente nos colemos, já tinha concluído.
Ensaiou algumas palavras num papel qualquer, porque essa história de que para escrever um bom texto é necessário ter um sítio certo, uma cadeira confortável ou um papel especial, não o convencia. Apenas lhe saíam as palavras do costume: Hoje, Tempo, Noite, Pensamento. Tudo era tão vago, sem jeito nenhum, como a tarde que passava.
Escreveu dez linhas e pensou, Agora, tem de surgir um elemento inesperado na narrativa, algo como “O telefone tocou” ou “Bateram à porta” ou ainda “Sentiu uma dor”. Não, pensando bem, não era isso que ele desejava para o seu texto, que assim das dez passava para as doze linhas e que o consumia sem ele saber qual a razão. Pousou o lápis e abandonou a folha, como quem desiste de fazer força. Naquele momento, iniciou-se o tempo da espera: o texto esperava o autor, o lápis esperava a mão e a ideia, esperava a palavra certa.
Um copo de água.

segunda-feira, julho 04, 2005

O Corpo de Julho



O corpo chama-nos. Um corpo de múltipla “pa-maternidade” que, sendo de todos, é simultaneamente de ninguém, como convém aos corpos.
Assim convoco os que já participaram em Junho e convido os que não puderam, ou não tiveram a coragem de se assumirem como “progenitores”, para participarem neste corpo de Julho.
As regras serão agora um pouco diferentes, para que o processo se aproxime ao processo original, proposto pelos surrealistas:
De entre os que se inscreverem até ao final da semana (dia 9), será aleatoriamente composta uma lista, cuja ordenação ditará a sequência pela qual o corpo será composto.
A imagem manterá os 300x100 (pixel) e deverá ser enviada para o Urso e a Cidade e, parte dela (300x25), será enviada para o “seguinte” papá ou mamã, que a aproveitará como base de trabalho, acrescentando-lhe (por cima) os 300x100, e assim por diante. Convém referir que quanto mais rápida for a participação de cada um, mais rapidamente se verá o resultado final.
Vamos a isso??

sexta-feira, julho 01, 2005

Woof!!!



O Urso e a Cidade agradecem publicamente a todos os visitantes e re-visitantes, que por aqui têm passado nos últimos (quase) dez meses! Tem sido uma viagem deveras interessante!
Conto convosco e com as vossas sugestões para, dia após dia, melhorar esta nossa cidade e fazer dela um agradável local de "encontro".

Abraços, para quem é de abraços e beijos, para quem é de beijos!!!

Agora nós!

O Renas e Veados e o Random Precision juntaram-se para promover o debate e discussão social em torno do aparente vazio legal existente entre a lei do casamento e o 13º artigo da constituição. A ideia passa por levar a tribunal as Conservatórias Civis que se recusarem a celebrar um casamento homossexual que tenha sido solicitado. Eis os dois artigos e a justificação para a contradição:

ARTIGO 1577º
(Noção de casamento)

Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.

Artigo 13º
(Princípio da igualdade)

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

A ideia acaba de ser lançada e esperam-se reacções. Mais informações no Renas e no Random Precision

Informação retirada de "O Melhor Anjo"

España, otra vez!! Olé!!!



Haverá ainda alguém que não saiba?!?!

(picado do Linha Turva)

REINAS



Quando puderem... NÃO PERCAM!!!!

Já agora, estejam atentos ao último de Alex de la Iglesia...